Chamamos aqui de "cardápio mineiro" o registro da culinária de Diamantina do final do século XIX, desenvolvido ao longo das páginas da obra Minha vida de menina . Trata-se de um aspecto significativo na obra. Helena chega a desenvolver descrições, reflexões e observações críticas a partir do ambiente gerado ao redor da cultura gastronômica local.
CARDÁPIO MINEIRO (Diamantina no final do XIX)
CARDÁPIO MINEIRO (Diamantina no final do XIX)
1893: 19 de fevereiro
Eu acho que a pior invenção da vida é mingau de fubá. Não
compreendo para que ele serve. Se a gente está com fome, toma mingau e a fome
aperta mais. Se não está com fome, bebe mingau e a fome abre. Há tanta coisa
boa para se fazer com fubá: cuscuz, broas, sonhos, bolos, e ninguém quer sair
do mingau de fubá.
1893: 23 de fevereiro
Leontino veio nos convidar para irmos assistir à inauguração
do telégrafo, que eles fizeram em casa, e que tia Aurélia esperava mamãe e a
família toda com muito carajé, chocolate e sequilhos. [...] Comemos muito
carajé. Tivemos uma boa mesa de chocolate, café e sequilhos, e as tias saíram
falando da inteligência dos meninos de lá.
1893: 22 de abril
O que anima a gente a passear no campo com tio Conrado e tia
Aurélia é a quantidade de coisas boas que ela leva: bolos, pastéis, craquinéis,
tudo do que ela faz para vender. Ela é muito boa doceira, igual a Siá Generosa.
1893:
28 de outubro Produção e consumo do Vinho do Porto
Hoje tia Carlota fez anos e jantamos na Chácara. Ninguém na
minha família bebe vinho azedo, mesmo na mesa. Só vinho do Porto, que vovó
manda buscar no Rio de Janeiro e vem em barris de um tamanhão enorme, que
chamam décimos. Engarrafa-se nas vésperas de Natal e fica para o ano inteiro.
Todos nós gostamos de vinho do Porto, que é do outro mundo de gostoso.
1894:
24 de maio
Seu Zeca é
um velhote cheio de manias. Não come carne-seca, couve picadinha, torresmo,
pepino e tudo, como nós. Só come carne com quiabo, arroz, angu e umas coisas
assim, tudo muito cozido, dizendo que sofre de gases.
1894:
5 de julho
O almoço
foi tão grande que deu também para o jantar. Tia Aurélia levou a comida de angu.
Mandou o negro da casa, Osório levar o tabuleiro com frangos de molho pardo,
lombo de porco, arroz, feijão, ervas e tudo. Mamãe e as outras tias já tinham
levado os cestos com as coisas frias.
1894:
28 de julho
Minhas tias
reúnem-se sempre na Chácara de noite e Dindinha costuma mandar fazer para todos
um judeu de comidas de angu Ora é frango com quiabo ou de molho pardo, ora
caruru com carne de porco ou tomatada. Na Chácara se faz muita couve no almoço
e no jantar, porque tem muita gente de cozinha. Generosa então inventou, da
cabeça dela, cozinhar os talos de couve com as peles do toicinho e faz um
guisado de que nós também gostamos muito.
1895: 21 de fevereiro
Tia Carlota é muito diferente. Ela é a mais feia e foi
casada com um professor do Serro, um velho que podia ser pai dela, e até hoje
costuma contar o gosto que o marido tinha de vê-la decotada com os braços de
fora. Ela é gorda e gosta muito de comer, e diz que não se deita sem uma barra
de chocolate em cima do tamborete, perto da cama, para comer se acorda durante
a noite. Ela conta que todo dia antes de deitar-se, come um prato de carne-seca
ou de porco frita, mexida com ovos, para não enfraquecer. Ela tem dentadura, e
quando vem à sala milho cozido ou pequis ou outra coisa assim, ela tira a
dentadura para comer
1895: 14 de março
"O jantar está pronto". Entramos. Eu fui com o
coração pequeno como uma noz. Até hoje nunca ninguém tinha feito uma coisa para
mim sem eu ter providenciado tudo e deixado às vezes pronto, se é convite para jantar.
Chegando à saia ela trouxe uma sopa de arroz com repolho. Depois pôs na mesa um
frango ensopado com macarrão, lombo de porco com batatas fritas, arroz e
feijão. Na sobremesa, goiabada de minhas tias, que é o melhor doce de
Diamantina, chamado "goiabada das inglesas", com queijo.
1895: 11 de outubro
(...) É um chocolate que leva ovos, leite e não
sei mais o quê; só sei que é grosso e muito gostoso. Maria Antônia costuma
deixar um restinho na caçarola para mim, e juro que a única hora em que eu
queria ser Siá Matilde é a hora do chocolate da manhã. Ela não acabou de
tomá-lo e já está Seu Marcelo na cozinha recomendando à cozinheira "o
almoço de Matilde". Vão no almoço e no jantar sempre três panelinhas: uma
com um arrozinho especial, outra com um franguinho de molho pardo ou com quiabo
e outra com abobrinha ou palmito ou qualquer verdura.
1895: 7 de novembro
De manhã ela me mandava levar o tira-jejum de meu tio: um
prato de torresmo com farinha, dois ovos fritos e uma cafeteira cheia de café,
para ele ir bebendo como água
1895: 16 de dezembro
Passei o dia muito triste, apesar de procurar me distrair. A
vida da família mudou tanto! Não há mais aqueles grandes jantares que reuniam a
família toda. Não há mais aquelas ceias que as negras faziam à noite: um tacho
de angu e uma panela muito grande, ainda do tempo da escravidão, cheia de
frangos com quiabo ou de molho pardo ou de tomatada de carne de porco.
1895: 25 de dezembro
Ensaboamos as roupas e estendemos nas pedras para corar,
tudo com pressa pois sempre temos muitos planos e já estávamos na hora do
almoço. Sentamo-nos na praia com nossos pratos feitos como para trabalhador;
feijão de tropeiro com farinha, torresmos, ovos fritos e arroz; sobremesa,
banana e queijo. Delicioso!
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