ANEDOTÁRIO - BREVE AMOSTRA
Narrativas
e descrições registradas com a “picardia” da adolescente do interior de Minas, Helena Morley.
As pequenas invejas, as doces vinganças, as maldades (as “coisas malfeitas”),
os fatos misteriosos e assustadores, as cenas mergulhadas no riso e no bom
humor, os desentendimentos, além da documentação da pobreza e das tragédias
íntimas.
ATENÇÃO: As datas e os excertos foram extraídos da obra, mas os títulos a eles associados foram criados por nós a fim de ajudá-los a identificar as histórias e personagens.
Davi Fazzolari®
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Caso do ladrão: 1893: 23 de
janeiro / 1893: 14 de março
Ontem eu tomei um susto muito grande. Está
correndo na Boa Vista que anda por aí um ladrão muito malvado, que passou em
Diamantina e os soldados não puderam pegar. Ele mata para roubar e quando os
soldados chegam, se é em casa, ele vira vassoura, cadeira ou outra coisa; se é
no mato ele vira cupim. Todos vivem apavorados. (...)
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Caso da Rifa: 1893: 29 de janeiro
Como é que se pode esperar ter um bilhete de
rifa e tirar na certa, como Renato e Nhonhô? Quando vínhamos para as férias,
Totônio apareceu na Chácara com uma rifa de um cavalo pampa e meus irmãos
ficaram com tanta vontade de ganhar um bilhete, que Dindinha comprou um e lhes
deu.(...)
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Passeata de Bambães: 1893: 26 de
fevereiro
Hoje andou pela cidade a passeata de Bambães.
Ele põe no andor um sino todo enfeitado e sai pelas ruas repicando e pedindo
esmolas para a igrejinha que ele está fazendo no Rio Grande É muito engraçado.
Os meninos vão atrás acompanhando, e eu acho que alegra muito as ruas.(...)
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O estranho caso de violência
doméstica entre Magna e Mainarte: 1893: 27 de abril
Houve agora na Chácara uma coisa que nunca tinha
acontecido. Uma negra chamada Magna casou com um negro africano chamado
Mainarte. Ela é muito esperta. Não quis que ele ficasse no fundo da horta na
preguiça, como vivia, e arranjou em rancho no Arraial dos Forros para os dois.
Ela se empregava nas casas para cozinhar e mandava Mainarte trabalhar para os
outros. Ele apanhava estrume para vender para as hortas; dava barris de água de
manhã e de tarde, ia buscar areia na Almotolia para as pessoas quando lavam as
casas; buscava palhas no rancho dos tropeiros para desfiar para colchão. E
assim iam vivendo.
Na Chácara, só se fala na maldade de Magna com o
pobre do Mainarte. Era raro o dia em que ela não lhe dava uma surra. Ele foi
queixar-se a vovó e pedir que aconselhasse Magna. Vovó chamou-a e ela respondeu
com todo o atrevimento: "Foi a senhora mesma, na sua casa, que pôs ele
preguiçoso e quer agora que eu vá sustentar vagabundo? Ou ele trabalha ou
apanha. Eu não capeio preguiçoso” (...)
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Conversa de velhos: 1893, 23 de
março
Já notei que conversa de velhos é sempre a mesma
coisa. Meu pai, quando não está falando no serviço que está fazendo, que dá
sempre muita esperança, conta os casos de Seu Laje, de Seu Agostinho Machado,
dois ingleses que vinham visitar meu avô. São sempre os mesmos toda a vida. Tio
Conrado tem o caso do lenheiro que achou uma pedra na Mata dos Crioulos e o
companheiro disse que era diamante. Como era muito grande para ser diamante, o
lenheiro meteu o olho do machado em cima, para provar que não era, e a pedra
saltou longe e ficou uma lasca. O homem trouxe a lasca a Diamantina e era mesmo
diamante. Tio Conrado levou o homem ao lugar para mostrar e procuraram até
cansar e não acharam mais a tal pedra. Quando não é isso e outros casos que a
gente já sabe, ele fica falando na idade de meu pai e minhas tias. Uma das
vezes que almocei lá ele disse: "Seu pai deve ter mais de cinqüenta anos.
Quando eu era menino ia comprar pomada na botica do Doutor Inglês, ali no alto
da Rua Direita, e seu pai era o caixeiro. Eu era menino de escola e ele já
estava buçando e sua tia Madge, que aparecia por lá, já era uma moça que podia
casar".
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A misteriosa gravidez de Tia
Raimundinha: 1893: 18 de agosto
(...)Ouvia sempre alguma delas perguntar: "Vocês não estão
incomodadas com a gravidez de Raimundinha? Ela, já daquela idade, é muito
perigoso, ainda mais sendo o primeiro filho assim". E ficavam contando
casos de gente de idade que morreu tendo o primeiro filho.
Tia Raimundinha, quando se encontrava com elas,
só falava no menino, no enxoval, na alegria de ter seu filhinho, mesmo já de
idade. Era até Deus que o mandava agora que ela e o marido viviam sozinhos. De
algumas semanas para cá aumentou a preocupação de todos, porque já tinha
passado o tempo do menino nascer e ninguém teve tranqüilidade na família. (...)
- O caso do enterro do avô protestante: 1893: 9 de novembro
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A cola e a reprovação no 1º ano:
1893: 9 de dezembro
Não passei do primeiro ano só e só por falta de
sorte e mais nada. No exame de Geografia quase ninguém deixa de colar To das
nós preferimos fazer sanfona; é tão mais fácil. Fiz todas com o maior cuidado e
fui para o exame com o bolso cheio delas Saiu para a prova escrita o ponto
"Rios do Brasil". Ótimo! Tirei minha sanfoninha, ia copiando e (...)
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Casamento da escrava branca (a
Bela adormecida): 1894: 16 de fevereiro
Vou escrever aqui o que aconteceu hoje na
Chácara de vovó e que é muito triste. As negras da Chácara do tempo do
cativeiro são todas pretas, mas não sei por que saiu uma branca e bonita.
Chama-se Florisbela mas nós a tratamos de Bela. Ela casou com um negro que faz
até tristeza. No dia do casamento houve uma mesa de doces e fazia pena ver Bela
sentada perto do noivo, coitada. (...)
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Furto na escola 1894: 17 de abril
Hoje deu-se comigo uma coisa tão horrível que eu
fiquei triste o resto do dia.
[...]
Acabadas as aulas ela chamou umas alunas e eu
fomos para o Palácio. Chegando lá fomos logo subindo, eu escorreguei, rolei a
escada um bom pedaço e meus livros se espalharam. Eu me levantei, pus-me a
ajuntar os livros e dei por falta de minha geografia novinha. Fiquei tão triste
de ter perdido meu livro que Maria Pena teve uma ideia e disse: "Vou
procurar nos livros de todas; pode ser que alguma tenha apanhado por
engano". Foi correndo os livros e o meu estava metido no meio dos de V...
Maria Pena tirou-o, entregou-me e ninguém falou mais nada.
Estou boba até agora.
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Os gases de Seu Zeca 1894: 24 de maio
Seu Zeca é um velhote cheio de manias. Não come
carne-seca, couve picadinha, torresmo, pepino e tudo, como nós. Só come carne
com quiabo, arroz, angu e umas coisas assim, tudo muito cozido, dizendo que
sofre de gases. Nós não entendíamos que doença era essa até uns dias atrás. Um
destes dias estávamos na mesa e Seu Zeca virou para mamãe: "A senhora dá
licença, Dona Carolina?". "Pois não, Seu Zeca", disse mamãe. Ele
saiu para o corredor e começamos a ouvir umas coisas que não posso escrever. Eu
e Luisinha apertamos a boca para não rir, mas foi impossível;(...)
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Um neto chamado Arício 1894: 6 de junho
Agora estou vendo que foi Deus que ajudou a
vovó, de tia Clarinha não ter ficado na Chácara. Ela trouxe um neto de sete
anos chamado Arício, que é pior do que Judas. Eu já tremo só de olhar para o
tal demônio. Só de lidar com o capetinha já estou compreendendo por que há
assassinos no mundo. Ninguém tem um minuto de sossego com o diabinho e não se
pode falar nada que tia Clarinha fica uma fúria. Ele só gosta de fazer
maldades. Já tirou todos os ninhos de beija-flor, tico-tico e pássaro-preto que
vínhamos escondendo no quintal; mas esta maldade, em vista do que fez com a galinha
de pintos de Naninha, não é nada. (...)
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A tarde dos casos e histórias 1894: 17 de junho
(...)
Depois do jantar os grandes ficaram na sala e
nós no salão do forno. Ninguém gosta de festa em casa dos tios que moram no
meio da cidade, porque não se tem lugar bom para brincar. Quando enjoamos de
brinquedos de prendas, inventaram então contar histórias. Cada um tinha que
contar a sua inventada ou acontecida. Eu logo pensei na minha e fiquei quieta,
esperando as dos outros.(...)
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Os ataques da feiosa e os
conselhos de Tia Agostina para as meninas 1894: 9 de julho
(...)
O homem chama-se Anselmo Coelho, é bonito e
simpático, casado com uma mulher horrorosa de feia e fanhosa, chamada Toninha.
Perguntei às primas por que um homem tão bonito casou com aquela feiúra, e elas
disseram que ele ficou viúvo de uma mulher bonita e, morando no Itaipava,
encontrou esta professora e como não lhe dava despesa, casou-se. Na mesa eu
notei o pouco caso do homem pela mulher, e já fui ficando com pena da pobre
coitada. Depois do almoço ficamos na mesa e a conversa caiu por gosto dele na
primeira mulher. Ele decantava tanto a graça, a beleza, a simpatia da primeira
mulher que eu ficava olhando a pobrezinha com pena dela. Ele dizia: "Mas
era tão ciumenta, que me fazia sofrer. Quando eu tenho saudades dela, sempre
procuro lembrar-me dos ciúmes. Ela não podia me ver sair sem querer ir comigo.
Se acontecia eu precisar ir sozinho para um negócio, antes de eu chegar à porta
já ela tombava de ataque". Contava tudo e acrescentava: "Tenho
saudades até dos ataques".(...)
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As histórias de Reginalda 1894: 21 de julho
Estava a família reunida na Chácara e nós, os
netos menores, fomos pedir a Reginalda que nos contasse histórias. Reginalda é
a negra que sabe mais histórias, e uma delas, a da pulga, me tem sido útil até
hoje. A pulga macha saiu de casa para a sua vida e despedindose da mulher,
disse: "Se me apertarem no dedo, adeus até mais logo; se me apertarem na
unha, adeus até mais nunca". Reginalda explicava: "Por isso é que não
se deve apertar a pulga com o dedo e jogar fora, porque ela não morre. Deve-se
matar com a unha, bem morta". Esta é a história mais certa que eu já ouvi.
Reginalda foi contando...
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Uma lenda urbana: o homem do saco:
1894: 25 de agosto
(...)Quando vejo Pai Filipe de saco nas costas pedindo esmola, eu
me lembro do sofrimento que Mãe Tina me fazia passar quando eu era pequena. Ela
dizia que Pai Filipe andava de saco na cacunda para carregar meninos e que ela
já tinha visto uma vez o saco com uma menina dentro. Que Pai Filipe ia de Porta
em porta pedindo esmola, batia no saco, e dizia: "Canta, canta, meu
surrão, que te dou com meu facão!". A menina de dentro do saco cantava:
Ó senhora desta casa,
Tenha pena e compaixão
Desta pobre desgraçada
Que está dentro do surrão.
(...)
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Caso do menino cego 1895: 12 de maio
(...)
Quando Siá Germana ficou de pé, meu pai foi
visitá-la, e vendo o menino com uma purgação nos olhos, disse: "Ferreira,
isto é coisa muito séria, e se você não levá-lo já ao médico, o menino ficará
cego". Seu Ferreira respondeu: "Qual o quê! Eu conheço já isto que as
outras também tiveram. É uma purgazinha que passará com água de rosas".
Meu pai insistiu ainda: "Não é coisa à-toa não, Ferreira. Leve o menino ao
médico hoje mesmo, se não quer ver seu filho cego". Seu Ferreira não
gostou do intrometimento de meu pai e mudou de assunto.(...)
· "As Botelhos" 1895: 13 de junho
(...)
Estava a velha rica estendida no caixão, com um
semblante muito bom de quem dormia sem roncar. Parecia mesmo que ela dormia tranquilamente.
As irmãs nos disseram que a morte começou com um sono pesado. Depois é que
viram que era morte, porque ela não acordou mais. As irmãs estavam com cara tão
alegre, que nem parecia que havia morte em casa. Saímos comentando a alegria
das irmãs e minha tia disse: "É porque a outra é rica. O dinheiro é que
tira o sentimento nas famílias". Naquele dia o enterro não saiu.(...)
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A professora substituta 1895: 18 de agosto
Parece até um sonho eu ter ficado livre da
escola de tia Madge só em dois dias. Graças a Deus a promessa que fiz serviu.
Tia Madge concordou em me substituir sem ficar zangada comigo, diz meu pai.
Como a chuva não quer passar, vou aproveitar para escrever aqui a tragédia
tintim por tintim, para não me esquecer do que sofri e não ter mais nunca a
tentação de ser mestra de escola. Nunca mais na minha vida!
(...)
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A descompostura de Zinha - 1895: 23
de fevereiro
(...) Não precisou mais nada para Zinha desandar
numa descompostura que não acabava mais. Achei engraçado ela gritar para a
outra: "Pensa que sou da sua igualha? Sabe lá você quem é meu pai, para
ter a audácia de vir me aconselhar? Eu, com este cabelo, valho vocês todas
aqui, sua cachorra! Eu sou filha de Dinis Varejão!". Ouvi tudo e fiquei
pensando nos pobres meninos que ela vai ensinar. Não haveria meio de impedir os
doidos de serem professores? Há tanto serviço que os doidos podiam fazer.
Passando na Chácara eu contei o caso e tio Joãozinho disse: "Aqui em
Diamantina não se poderia separar os doidos. Basta fazer uma cerca ao redor da
cidade. Isto aqui é um verdadeiro hospício". Em casa meu pai disse:
"Um dos que ficavam dentro da cerca era ele, que não é dos mais
equilibrados".
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O fastio de Siá Matilde: um dia de
raiva 1895: 11 de outubro
(...)Siá
Matilde é a mulher mais feliz que eu já vi na vida. Seu Marcelo só vive para
satisfazê-la, ou aliás para entupi-la de comida. Na nossa família até hoje se
conta o caso do casamento de Ilídia. Seu Marcelo pediu uma vasilha para mandar
"o jantar da Matilde", e entrou na despensa para procurar;
encontrando uma quarta, encheu-a de tudo e mandou para casa. [...] Não há casa
em que Seu Marcelo não peça um pratinho para "desenfastiar a
Matilde". Eu que vivo lá é que vejo o fastio dela. Maria Antônia já acorda
com o pau-de-chocolate na mão para bater o chocolate bem batido. É um chocolate
que leva ovos, leite e não sei mais o quê; só sei que é grosso e muito gostoso.
[...] Ela não acabou de tomá-lo e já está Seu Marcelo na cozinha recomendando à
cozinheira "o almoço de Matilde". Vão no almoço e no jantar sempre
três panelinhas: uma com um arrozinho especial, outra com um franguinho de
molho pardo ou com quiabo e outra com abobrinha ou palmito ou qualquer verdura.
Ela sempre dizendo: "Que suplício!" vai comendo as três panelinhas e
depois bebe um martelete de vinho da doente. [...] Na hora do jantar a mesma
comilança, sempre se queixando de falta de apetite. De noite todos nós tomamos
canjica com rapadura e ela toma um copo de leite que Maria Antônia prepara; põe
na caçarola três garrafas de leite para reduzir e dar dois copos.(...)
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A lenheira e os filhos
famintos 1895: 20 de novembro
Na nossa
vizinhança morava uma lenheira numa casinha que estava caindo. Ela ia buscar
lenha e deixava os dois filhinhos na porta, morrendo de fome e encostados um ao
outro por causa do frio. De menina eu passava para a Escola e lhes dava da
minha merenda, fui me acostumando e gostando dos meninos e já pedia às minhas
amigas roupinhas velhas para eles e lhes arranjava livros velhos de pinturas. A
mãe deles foi também gostando de mim, e para o fim só queria me servir e
arranjar coisas para me trazer de presente. Trazia-me cocos, araçás e toda
fruta do mato que achava. A pobre teve de mudar-se para a Palha e lá fui
encontrá-la de novo.(...)
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osolharesdehelena.blogspot.com.br estudo da
obra de Helena Morley para o Intensivo Fuvest
Davi Fazzolari®
O que ela quis dizer com: "[...] se é em casa, ele vira vassoura, cadeira ou outra coisa; se é no mato ele vira cupim.", no caso do bandido.
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