ASPECTOS TEMÁTICOS - RACISMO, CULTURA ESCRAVISTA, DESIGUALDADE DE GÊNERO, DESIGUALDADE SOCIAL E ALCOOLISMO

RACISMO   

Conexão com Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Ao acessar o link vá para RACISMO/SEGREGAÇÃO

Nessa comparação, será possível verificar as diferentes abordagens para a cultura escravista, no Brasil. A postura "ambigua" de Helena em relação ao racismo de seu tempo e a leitura "cínica" de Brás Cubas (e crítica de Machado de Assis) para o mesmo tema.  

1893: 20 de abril  (Caso do aluguel de negros e das Cunhas)

1893: 17 de junho (Teatrinho infantil) 
“No fim ele chamou Emídio e perguntou se queríamos ver um negro virar branco, e virou farinha de trigo na cara de Emídio.”

1893: 27 de setembro (Joãozinho)  
“(...) inglesinho perfeito; não pode parecer negrinho de senzala”

1893: 2 de novembro
1893: 12 de novembro
1894: 10 de fevereiro
 1894: 16 de fevereiro (Casamento da escrava branca)
Vou escrever aqui o que aconteceu hoje na Chácara de vovó e que é muito triste. As negras da Chácara do tempo do cativeiro são todas pretas, mas não sei por que saiu uma branca e bonita. Chama-se Florisbela mas nós a tratamos de Bela. Ela casou com um negro que faz até tristeza. No dia do casamento houve uma mesa de doces e fazia pena ver Bela sentada perto do noivo, coitada. Marciano é o negro mais estimado da Chácara. Aprendeu o ofício de ferreiro e entra na sala para cumprimentar vovó e minhas tias. Mesmo assim eu não queria que Bela casasse com ele. Ela é tão bonitinha! Parece até uma rosa-camélia, clara, corada e com uns dentes lindos. No dia do casamento meu pai disse: "É um brilhante no focinho de um porco". Todo mundo teve pena. Mas ela quis e vovó diz que gostou porque Marciano é muito bom e trabalhador

1894: 18 de agosto 
Meu pai e mamãe sempre conversam em casa sobre a mania de vovó e Dindinha nunca passarem sem um crioulinho para criar e gostarem tanto como se fosse branco. Cada uma tem sempre o seu. Se aquele cresce já vem outro para o lugar.
Vovó sempre cria negrinhas e Dindinha negrinhos. Quando são pequenos eu não me admiro, porque eu também gosto muito de menino pequeno e acho muita graça no Joaquim que Dindinha está criando agora. Ela o manda fazer gracinhas para nós e ele é muito engraçadinho. Mas gostar de negrão é que eu acho uma coisa esquisita.

1895: 23 de abril
1895: 4 de junho
1895: 18 de agosto
1895: 22 de novembro
Como se pode ser tão bom como o nosso professor Dr. Teodomiro! Depois meu pai ainda diz que gente escura não presta. Na Escola, pelo menos, os melhores são ele e Seu Artur Queiroga. Os brancos são crus de ruindade.

1895: 28 de dezembro
Salomão minera sozinho e tira sempre seus diamantinhos. A mulher dele chama-se Margarida. É uma família de negros limpos e bem-educados, que nos oferecem um jantar todas as férias e café com qualquer coisa todas as vezes que lá vamos. Eles têm uma casa limpa que faz gosto. A mesa da sala de jantar e os bancos são areados e claros como novos. O pote de água, coberto de uma toalha de crochê alva; a bandeja de xícaras também. Têm um quintal com frutas e uma hortinha muito bem tratada, com verduras de toda espécie, um galinheiro cheio de galinhas e colhem muitos ovos. Uma gente preta melhor e mais bem-educada do que muitos brancos que eu conheço. Só uma coisa na casa espanta a gente, é ver os meninos todos roídos de barata. Meu pai perguntou-lhe o que era aquilo e ele respondeu-, "É o nosso castigo, Seu Alexandre. Vamos apagando a luz e já vem a barataria roer a meninada. A gente cobre eles bem cobertos, mas daí a pouco a coberta está prum lado. O senhor sabe como é difícil lidar com menino".


CULTURA ESCRAVISTA

Conexão com Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (ao acessar o link, vá para "ESCRAVISMO")
Nessa comparação, será possível verificar as diferentes abordagens para a cultura escravista, no Brasil. A convivência "paradoxal" de Helena com ex-escravos e a leitura "cínica" de Brás Cubas (e crítica de Machado de Assis) para o mesmo tema.  

1893: 17 de maio (“Casa-grande” de Dona Mariana)   
Estivemos conversando na mesa sobre a felicidade que Dona Mariana e o Major Antônio Felício conseguiram na terra. Eles são donos da fábrica e a família toda é empregada ali. Matam boi de manhã e os pedaços melhores vão para as casas dos filhos e para a casa-grande, que é onde mora Dona Mariana. O resto vai para o pessoal da fábrica.

1894: 14 de janeiro
Ela e vovô começaram a vida muito pobres, só tinham dois escravos.”

1894: 28 de julho O destino dos ex-escravos 
Essa Maria Pequena, eu já conhecia a história dela antes dela aparecer. Mamãe conta que queria ficar com ela no inventário de vovô, mas que ela saiu com a filha para tio Geraldo. Ela é mulata e diz mamãe que era bonita. Não sei o que houve, a mulher de tio Geraldo, que morava na fazenda, tomou birra da escrava e mandou vendê-la para a Mata do Rio. Mamãe, quando soube, mandou meu pai atrás do homem que a comprou pedir que a vendesse para ela. Vovó também fico muito triste e mandou oferecer para comprá-la mais caro Ma o homem disse que já tinha despachado os escravos desde mui tos dias e que eles já estavam muito longe.

1894: 9 de dezembro  (O 13 de maio na chácara da vovó) 
1895: 6 de abril   AMA DE LEITE 
1895: 10 de novembro
“Hoje morreu o último negro africano de vovó”

1895: 16 de dezembro
“Não há mais aquelas ceias que as negras faziam à noite...”

DESIGUALDADE DE GÊNERO
1893: 23 de fevereiro
1893: 25 de fevereiro (?)
1893: 23 de agosto
1893: 30 de dezembro
1894: 07 de janeiro 
Hoje, quando chegamos à casa de Júlia, ela disse a mamãe: "Os planos de Helena já se vão por água abaixo, Dona Carolina. A senhora já soube que vou me casar breve? Já arranjei até substituta. Agora vai ser mais difícil para Helena". Respondi: "Eu também não tenho esperança de tirar meu título tão cedo, Júlia. Se no primeiro ano já encalhei, avalie nos outros. Também a gente não sabe do futuro. Quem sabe se eu também, quando ficar moça, não vou encontrar, como você, um rapaz de quem eu goste e não vou ter precisão de dar escola?". Júlia disse: "Isto é que vai ser o mais certo".

1895: 21 de fevereiro
Tia Carlota é a tia que nos faz rir, não pelo espírito, que não tem nenhum, mas porque é muito diferente das outras irmãs. Ninguém na família se preocupa consigo. Todas as minhas tias só se ocupam dos maridos e dos filhos. A pessoa delas não vale nada. Nunca vi mamãe ou qualquer de minhas tias comer uma coisa antes dos maridos e dos filhos. Se alguma coisa na mesa é pouca, elas nem sabem o gosto. Mamãe eu ainda acho que é mais abnegada que as outras, porque além dos cuidados com os filhos, é a que tem mais agarramento com o marido. É até falado na família. Quando eu reclamo o pouco caso que ela faz em si e a preocupação conosco e com meu pai, ela responde: "Você verá quando for mãe. Você não sabe o ditado: 'Desde que filhos tive nunca mais barriga enchi? É a pura verdade. Minha vida são vocês e seu pai. Se vocês comem, eu fico mais satisfeita do que se fosse eu".



DESIGUALDADE SOCIAL
1894: 6 de abril
1894: 9 de abril
1895: 10 de setembro
Só eu na Escola conheço a sua vida pois a mãe, Siá Joaquina Balaio, é lenheira e mamãe costuma comprar a lenha dela. Gosto muito de ver o esforço que ela e a mãe fazem, coitadas, e se há um passeio aonde vou com prazer é ao Cruzeiro, só para ir ao rancho delas. [...] Nem sei como elas tiveram ideia de fazer ali o seu ranchinho. Só há lá o delas e elas não têm o menor medo, pois são protegidas pelo Cruzeiro que é muito próximo. O cômodo é um só, com um jirau e um colchão de palha para as duas e um caixote para assentar. O fogão também é no quarto e elas me disseram que no tempo de frio se aquecem muito bem com canela. Maria, para escrever, senta-se no caixote e escreve na cama, com canela de azeite num prato de barro. A cama é coberta de uma colcha de retalhos. Os retalhinhos são tão pequenos, que a gente admira a paciência da mãe dela de ajuntá-los e coser. Para estudar ela prefere o adro do Cruzeiro quando não chove. Elas me disseram que se Deus não mandasse chuva nada as aborreceria; a chuva é que é triste, não só para a mãe ir ao mato buscar lenha, como para Maria subir do Cruzeiro até a cidade e voltar. No mais a vida lhes corre como a de todos nós.


ALCOOLISMO (vícios)
1893: 11 de março
1893: 24 de julho
O maior comilão da cidade é Seu Antônio do Rego. O maior bebedor é nosso pobre professor Seu Leivas que em todas as festas acaba sempre bicudo. O que vi ontem no jantar eu nunca pensei que se desse. Depois que Padre Augusto acabou de recitar uns versos à saúde de Siá Aninha, eu olhei para Seu Leivas e vi-o encher as bochechas, de boca fechada, numa careta muito engraçada. Eu não despregava os olhos dele, rindo a mais não poder. [...] Eu estava vendo tudo espantada sem compreender, quando se deu uma coisa incrível. Seu Leivas encheu de novo as bochechas, dois esguichos de cerveja lhe saíram pelas ventas e regaram todos os pratos que estavam na frente! Levaram Seu Leivas para dentro, cobriram a toalha e Seu Antônio do Rego pôs de novo a travessa na mesa dizendo: "Este, ao menos, está salvo; vamos aproveitar e comê-lo, antes que o Leivas volte!"

1894: 8 de outubro
1895: 23 de maio
“(...) Ultimamente ele deu para beber, deixou de trabalhar e ficou relaxado. Passa o dia todo sentado na pedreira da casa dele com a mão na cara, calado. Depois que vieram os estrangeiros para aqui comprar lavras, ele ficou com a mania que é francês. Quando uma pessoa lhe diz: “Abílio, deixe dessa preguiça, vá trabalhar”, ele responde: “Não posso. Sou cidadão francês”.”

1895: 28 de maio
“Hoje achei graça num parente bêbado que veio aqui em casa. Américo, irmão de Abílio. (...) Quando ele acha mais ouro ou tira algum diamante, ele vem para a cidade e inverna na bebida...”

1895: 15 de julho

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osolharesdehelena.blogspot.com.br estudo da obra de Helena Morley para o Intensivo Fuvest

Davi Fazzolari®

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